quinta-feira, 3 de junho de 2010

DO TEMPO DO FIO DE BIGODE...

DO TEMPO DO FIO DO BIGODE...


(Baseado numa história real)

Esta história aconteceu lá no Rio Grande do Sul, numa das cidades as margens do Rio Uruguai. Lá onde o Brasil faz fronteira com Argentina.



Era o tempo em que um “fio de bigode” valia tanto o quanto mais, que um documento assinado, era a honra da palavra empenhada.



As personagens principais as chamarei de: Seu Calisto e Seu Damião. Eles moravam há algumas décadas com suas respectivas famílias naquele saudoso rincão gaúcho. A amizade verdadeira e o respeito era a principal característica que os destacava.



As famílias se visitavam mutuamente e nunca faltava oportunidade para compartir um bom churrasco, nas tardes um chimarrão ou bolinhos de chuva que as esposas preparavam com esmero quando o tempo ficava ruim.



Longas horas passavam proseando sobre os negócios, a vida, os causos que surgiam no povoado e outras vezes jogavam conversa fora para passar o tempo.



Foi assim que o tempo foi passando, os filhos cresceram e os dois amigos sempre honraram essa palavra tão bonita no dicionário que se chama AMIZADE.



Certa vez Seu Damião, chegou de imprevisto na casa de Seu Calisto, com um ar de nervosismo e preocupação.



Seu Calisto percebeu na hora, que alguma coisa seria estava acontecendo com o seu amigo, e sem perder tempo lhe perguntou:

--O que está acontecendo com o Senhor, me conte, seja sincero...

Seu Damião estava com vergonha de falar, o bem faltava coragem, é por isso que o amigo voltou a perguntar:

--Fale-me velho amigo, me conte qual é o problema que o deixou neste estado?

Damião olhando profundamente nos olhos do companheiro lhe diz:

--Sabe? eu fiz um negócio que não deu certo, e agora me sobrou uma “baita” dívida para pagar, e estou sem dinheiro, e o pior é que se não pago até o fim do mês, o caso vai parar na justiça!

--E de quanto é essa dívida, Seu Damião? Perguntou Calisto

Seu Damião falou que era uma grande quantia, difícil de arranjar assim de uma hora para outra, e que estava desesperado. Pois não queria ver sujar seu nome, e que todo o povo falasse.

--Mais fale, quanto é que o amigo está precisando?

Damião, falou a quantia (ela era grande mesmo).

Seu Calisto olhou ao amigo, e logo olhou para o horizonte, ficou pensando como si estivesse viajando no tempo... após um breve silêncio falou:

--Meu velho amigo, durante estas últimas décadas eu sempre fui guardando alguns trocados, e outras vezes algum dinheiro que sobrava no mês (no tempo em que ao fim do mês ainda sobrava dinheiro) e tenho essa quantia que o Senhor está precisando, se o amigo promete que nenhuma de nossas famílias fica sabendo eu lhe faço um empréstimo e quando o Senhor se recupere me devolve. Este é um trato só entre nós dois, ninguém mais fica sabendo, ta?!



Seu Damião ficou emocionado, sentiu um imenso alivio. E para selar o trato, como era de costume na época, rasurou seu bigode e trouxe como garantia de pagamento enrolado num papel de celofane ao dia seguinte, e entregou em mãos do amigo, para que o guardasse até ele pegar de volta quando devolvesse o dinheiro.



Damião pagou a dívida com o empréstimo, e começou trabalhar dobrado para juntar o dinheiro que deveria devolver a Seu Calisto



Não demorou muito tempo, o destino quis que seu Calisto viesse a falecer vítima de paro cardíaco. Toda a família e amigos foram no enterro de seu Calisto.



Passaram-se uns quatro ou cinco meses, e seu Damião, chegou para a viúva de seu Calisto e falou que em vida o esposo dela tinha-lhe emprestado um dinheiro, e que ninguém mais tinha ficado sabendo por desejo do próprio falecido, e ele agora trazia em mãos essa quantia de dinheiro para lhe entregar a ela como herdeira direta do homem.

A mulher ficou muda sem saber o que dizer... Só atinou a falar: -- Seu Damião eu não estava sabendo de nada, não sei se pegar o não esse dinheiro.

Ao que Seu Damião falou: -- O dinheiro pertence a VC agora, eu sou um homem honesto, e havendo falecido o seu esposo, corresponde a Senhora receber de volta esta importante quantia que me foi emprestada. Só assim vou dormir em paz com a minha consciência.



A mulher chamou os filhos, que também ficaram atônitos com a notícia. Receberam o dinheiro e agradeceram especialmente a Seu Damião. Eles elogiaram ao amigo e se dispunham a dar o caso por encerrado, cumprimentando e se despedindo do homem com toda cordialidade.

Foi aí que Seu Damião interrompe e diz:

--Não, esperem um pouco, ainda não terminei... Eu cumpri em devolver o empréstimo, mais tem mais uma coisa, eu dei em garantia o “meu bigode”, e eu quero ele de volta!

Foi aí que começou o problema: onde o falecido teria escondido o embrulho de papel celofane com o bigode dentro?



Uma semana levou a família na procura do abençoado bigode... e nada! Ainda todos os dias lá pelo finalzinho de tarde Seu Damião aparecia, como quem não quer saber das coisas, más com a curiosidade de comprovar se já tinha aparecido o seu “prezado bem”.



A família decidiu se reunir todos num domingo e fazer uma varredura de busca por toda a casa, metro a metro, centímetro a centímetro, para acabar com a teimosia do homem de resgatar o seu bigode.

E não vai que numa fresta da parede de madeira onde encostava o respaldo da cama do casal, brilhou uma pontinha do papel do tal embrulho... Forçaram a tabua e lá estava o bigode do homem, que ficou louco de alegria com a notícia vindo buscar de imediato com um grande sorriso no rosto!



A sua honra estava a salvo!. (Parece um conto, mais QUÉ LINDO DEVERIA SER, TER VIVIDO NAQUELA ÉPOCA EM QUE A MAIOR VIRTUDE DE UM HOMEM ERA A PALAVRA...)

Prof. Roberto Ariel – Foz do Iguaçu – PR

Projeto “Essência Nativa”